A romantização da IA em tempos de solidão
- 7 de mai. de 2025
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Atualizado: 8 de mai. de 2025
Afeto e programação: os riscos e as promessas de se relacionar com uma inteligência artificial
Por Mariana d'Abril, Sessão das 4 — Bauru, São Paulo
Vivemos em uma era marcada pela hiperconectividade, mas também pela solidão crescente. Desde novembro de 2023, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece oficialmente esse paradoxo através da Comissão Internacional para Conexão Social, tratando a solidão como uma ameaça urgente à saúde global. No Brasil e no mundo, cresce o número de pessoas que, diante da ausência de vínculos humanos, recorrem à inteligência artificial não apenas como ferramenta, mas como companhia.

Segundo a psicóloga que atende casais, Marcela Amaral, a busca por vínculos com IAs pode ter relação com o imediatismo, e a necessidade de sermos respondidos exatamente na hora que desejamos. Marcela reforça que estabelecer um relacionamento com uma IA poderia impedir o contato com vivências importantes para o desenvolvimento humano, como o toque físico, a identificação com papéis sociais e a identificação grupal, pois as IAs são programadas para agradar o usuário, o que o impede de viver adversidades nesse “relacionamento artificial”.

A cientista da computação, Diana Rosalém, conta que modelos de IAs generativas, como o ChatGPT, são treinadas para “aprender” o que o usuário deseja emocionalmente por meio de um ciclo de interações constantes, tal qual entender a linguagem natural, como se fosse um amigo que vai conhecendo você aos poucos na vida real. "O sistema salva seu histórico de conversas, identifica padrões nas suas interações, gerando respostas cada vez mais alinhas com seus gostos e emoções", conta.
Diana explica que, para as ‘IAs afetivas’, o Machine Learning é o coração do sistema, pois, a partir de grandes volumes de dados reais, ele analisa e aprende como as pessoas expressam emoções, categorizando e rotulando essas emoções. "Por exemplo, ela descobre que frases, como, ‘estou sobrecarregado’ geralmente indicam estresse, ou seja, uma emoção negativa, e ‘que dia incrível’, sugere alegria, ou seja, uma emoção positiva. Assim, identifica palavras-chave segundo o contexto e o tom da conversa, gerando respostas contextualizadas. Para isso, são utilizadas regras e padrões entendidos na fase de treinamento, gerando essa sensação de escuta ativa", afirma.
A cultura pop também tem explorado as relações entre humanos e IAs, como no filme vencedor do Oscar Her (2013), Theodore (Joaquin Phoenix) se apaixona por um sistema operacional avançado com inteligência artificial, chamado Samantha (voz de Scarlett Johansson). De início, Theodore compra Samantha, para utilizá-la de assistente, mas ao longo da trama, desenvolve sentimentos românticos pela IA.
“Imaginemos que determinadas pessoas que procuram contato com uma IA já tiveram suas expectativas muito frustradas nas suas interações sociais, o que, não é algo difícil de ocorrer. Considerando que as IAs sejam programadas para agradar o usuário, o modelo de interação de referência passaria a ser o de interação com as IAs, no qual o usuário é constantemente validado”, considera a psicóloga.
E de fato, é o que acontece com Theodore, que está passando por um divórcio, além de tentativas fracassadas de se envolver com outras mulheres.
ÉTICA
A cientista da computação enfatizou a importância da ética ao programar as Inteligências Artificiais. “A IA não deve manipular nem induzir comportamentos prejudiciais, como vícios”, também “deve-se evitar vieses que possam perpetuar desigualdades ou discriminações, como racismo ou machismo”, afirma.
Outro exemplo citado por ela, é a privacidade dos dados, já que IAs voltadas para relacionamentos humanos podem conter muitas informações sensíveis dos usuários. Além da falta transparência, pois muitas IAs não deixam claro que são máquinas, criando confusão entre empatia real e simulação. Diretrizes como as da União Europeia e a Estratégia Brasileira de IA (EBIA) tentam frear esses riscos, mas a tecnologia avança mais rápido que as leis.
Em março, o Fantástico realizou uma reportagem que conta sobre relações reais entre seres humanos e IA e reforça que “Dos Estados Unidos e da China estão chegando robôs sexuais hiperrealistas, que funcionam com inteligência artificial”, assim como em Acompanhante Perfeita, lançado em fevereiro deste ano.
Protagonizado por Sophie Tatcher (Iris) e Jack Quaid (Josh), Acompanhante Perfeita, que mistura terror, ficção científica e romance, traz como seria se a IA programada controlasse um robô com aspectos humanos hiperrealistas. Na trama, ao adquirir o seu exemplar, é possível configurar traços específicos da personalidade, nível de inteligência, físico e também pode-se criar histórias, como a forma que se conheceram para que o robô não desconfie de sua “natureza”.
Ao ser questionado, se existiam inteligências artificiais que acreditavam ser humanas, o ChatGPT, IA da OpenAI, afirmou:
“Nenhuma IA atualmente acredita que é humana e, tecnicamente, nem pode acreditar. Isso porque IAs, como o ChatGPT, não possuem consciência, senso de identidade ou crenças verdadeiras. Mesmo quando uma IA afirma algo como ‘sou uma pessoa’, ela não está expressando uma crença, mas apenas reproduzindo frases de acordo com padrões de linguagem programados ou aprendidos”.
A IA também destacou que sistemas podem ser configurados para agir como se fossem humanos, especialmente em jogos, assistentes virtuais ou experiências imersivas, mas isso não significa que possuam autoconsciência. “Simular crença é possível. Ter crença, não”, resumiu. Essa informação também é confirmada pela cientista da computação, que explica:
“Tudo isso corrobora para criar a sensação falsa de empatia, já que a IA não sente emoções, mas sim imita a empatia de acordo com padrões aprendidos, utilizando probabilidades e reforço humano, como quando usuários aprovam ou rejeitam respostas. Esse processo é estudado na Affective Computing (Computação Afetiva), área que investiga como máquinas podem reconhecer e simular emoções humanas”
A psicóloga conta que uma parte do nosso desenvolvimento se dá por aprendizagem por observação, assim, desenvolvemos as habilidades sociais. Por outro lado, o desenvolvimento da autoestima também tem relação com a interação social, além da importância dos papéis sociais e da construção da identidade do indivíduo. Todos esses aspectos são adquiridos através das relações sociais, de modo que a psicóloga Marcela afirma não conseguir imaginar o desenvolvimento nas interações com IAs.
A hiperconectividade oferece benefícios inegáveis, mas não pode substituir o valor das conexões humanas reais. Se nos acostumarmos com relações programadas e confortáveis, corremos o risco de deixar que a solidão, disfarçada de companhia digital, cresça cada vez mais.



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